domingo, 26 de março de 2017

Passeio de domingo (350)


Este é mais um passeio de arquivo, pulando valados aqui pela aldeia, com imagens recuperadas de março de 2013. 








sábado, 25 de março de 2017

Meteorologia


     o
sol
            brilha
pelo
           meio
do
            sopro
do
           vento




A chave do problema

Quando ela pôs todos os pertences dele na rua e trocou a fechadura da porta, soube que aquele era o momento chave da sua vida. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Chuva breve


Tuas palavras
Como gotas de chuva
Caídas do céu

Bluff

A minha mãe tinha uma cicatriz em forma de quarto de lua junto ao olho direito. Foi de uma queda. Contava ela. Vinha disparada a correr ladeira abaixo. Foi nas pedras do valado. Contava ela. E eu estremecia, sentindo em mim a dor da queda, a dor do golpe, o sangue a jorrar. Não era a criança que a minha mãe tinha sido que eu via, era eu própria estarrecida de medo perante a possibilidade de um acidente assim, perante as consequências de uma ferida que a milímetros de distância podia traduzir-se em cegueira.  Sempre tive medo. Medo de tudo. Imagino sempre o pior se não tenho notícias de alguém no momento em que eu acho razoável tê-las, se os meus filhos não me atendem o telefone à segunda ou terceira chamada, se um atraso acontece numa chegada prevista de alguém em viagem, se ouço as sirenes de uma ambulância. Começo logo a ver cenas terríveis, acidentes, raptos, assaltos, dramas horríveis. Quando digo ver é mesmo ver. É como se estivesse no cinema com a ação a desenrolar-se na frente dos meus olhos. Acontece de forma tão vívida que sou obrigada a sacudir a cabeça ou a abanar a mão na frente do rosto para afastar essas visões como quem afasta uma mosca. Sou uma pessoa com medo e a cada ato de terror que presencio na aldeia global, vejo-me assaltada por um enxame de moscas. Claro que com o treino de uma vida que já tenho, consigo rapidamente afugentá-las. Só não consigo acreditar que estas criaturas não aflijam também os outros, aqueles que fazem questão de dizer que não, que não têm medo. 

Nuvens

Pergunto-me em qual das nuvens te escondes hoje. Se numa das atormentadas que se elevam no horizonte, se nas de fiapos rendilhados que enfeitam o azul, aqui mesmo sobre mim.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Toalha de mesa



Falo-te hoje de uma toalha de mesa
simples pano de algodão
protegendo o verniz,
o brilho da madeira.
Falo do desarrumo de
meses a fio e de dois castiçais
que ladeiam uma fruteira vazia.
Falo de um maço de papéis
rascunhos de vida,  de sonhos e de nadas,
misérias que  impregnam  as lentes dos óculos
quase sempre embaciadas.
Falo de uma folha branca parada no ecrã,
de um fio repuxado,
arrancado ao casaco, enrolado entre os dedos,
deixado sobre a mesa
como migalha para sacudir e varrer.

Falo-te hoje de uma toalha de mesa
que é preciso trocar.


terça-feira, 21 de março de 2017

O eco da palavra



O poema não funciona é o que dizes
por vezes  sobre versos que te mando
funcionará depois? as cicatrizes
das modificações somem-se quando

alguns dias mais tarde o reescrito
texto releio tudo funcionando
no seu exacto corpo como o digo
som da palavra ecoando

em casa como em gruta, grito
logo perdido nos confins da pedra
certo batendo e desfazendo o hirto
silêncio do granito em que penetra

Era a alma do poema que faltava,
O eco da palavra?


Gastão Cruz

segunda-feira, 20 de março de 2017

Vem, senta-te aqui e fica a ouvir comigo…



Pétala

Vi-a, branca, minúscula, caída no chão da sala. Percebi que tinha viajado da horta até aqui agarrada à camisola do meu pai. Apanhei-a e mantive-a na palma da mão, em concha, como quem segura uma gota de perfume. E toda ela era perfume verdadeiro. Ainda agora lhe sinto o aroma, a um tempo fresco e doce. Assim me chegou a primavera, numa pequena pétala de flor de limoeiro.

domingo, 19 de março de 2017

Passeio de domingo (349)



O passeio de hoje revisita vários anos, meses e locais, Só para vos trazer flores de azul.











sábado, 18 de março de 2017

Busca

Procurei em todas as gavetas, abri todas as caixas, espreitei em todas as bolsas, passei a mão por detrás dos montes de camisolas, meti a mão em todas as algibeiras, desdobrei as meias, afastei os frascos de perfume, despejei as carteiras, abri os guarda-joias, levantei as almofadas, afastei as cortinas, revolvi a pilha de revistas, espalhei os papéis, folheei os livros, remexi nas arcas, sacudi os cadernos, procurei por toda a casa e não houve meio de encontrar as palavras que queria usar hoje.


quinta-feira, 16 de março de 2017

A invenção dos dias

Agora que a chuva parou, escancarei as janelas para que entre o ar. Sinto-o fresco a bater-me na face e é como se fosse eu a inventá-lo. Invento o ar e os sons da rua. Invento as cores que cobrem todas as coisas, lá fora e cá dentro. Invento as imagens que se movem no televisor. Invento as letras impressas nas seiscentas e trinta e cinco páginas do livro que estou a ler. Invento o avião que cruza o céu. Invento a música do anúncio que marca o intervalo no programa. Invento a vela inclinada que quase cai do castiçal. Invento as palavras que esqueci. Invento a luz que esmorece ao fim da tarde. Invento o que me dizes. Invento as gotas de água que ainda escorrem nas paredes. Invento o que quiseres. E se não acreditas, tanto pior. Eu não me importo nada e vou agora mesmo inventar a verdade.

terça-feira, 14 de março de 2017

Correio celeste

Em dias como hoje, em que o vento empurra as nuvens no céu, pego nos meus instrumentos de cálculo para verificar se ele sopra na direção correta. Se os dados me parecerem certos, escolho cuidadosamente uma nuvem, de preferência a mais macia, uma que tenha o cume com reflexos de sol, e, nas suas dobras, coloco as palavras que te quero dizer. Vejo-a depois afastar-se e confio que a reconhecerás quando ela aí chegar. Acredito que este serviço de entrega é perfeito, ou quase. Só ainda não encontrei forma de lhe acoplar um aviso de receção.

segunda-feira, 13 de março de 2017

domingo, 12 de março de 2017

Passeio de domingo (348)


Então, hoje passeamos assim: recuamos a 2016  e avançamos até junho para fazer o caminho entre pinheiros, até nos podermos debruçar sobre a praia.








sexta-feira, 10 de março de 2017

Iogurte

Como um iogurte natural, sem açúcar e sem o mexer no copo. Não o quero cremoso. Gosto do cheiro que sinto assim que lhe levanto a tampa. Gosto da sua superfície lisa e brilhante. Gosto de lhe ferrar a colher para o extrair aos bocadinhos, cada um na sua forma, geometrias provisórias logo desfeitas entre a língua e o céu da boca. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

A arte de degustar café

Nesta tarde de sol imenso que parece ter chegado diretamente do verão, com uma força que me fez usar chapéu de palha durante a minha incursão ao exterior em busca de vitamina D, recebo pelo correio uma encomenda remetida pela conhecida marca de café que também tem nesta casa máquina e cápsulas variadas. 

Encaixada em elegante estojo de espuma negra, brilha, como uma jóia, uma colher. Um cartão explica-me que se trata de uma “exclusiva colher de degustação” para que eu “possa sentir os pequenos detalhes que só um verdadeiro apreciador repara” e convida-me para umas tais masterclasses em que os especialistas me farão aprofundar os meus conhecimentos sobre o café.

No verso do cartão, ensinam-me, desde logo, como deve ser feita a degustação em casa. São quatro pontos de instruções e, num deles, leio que devo sorver o café utilizando a colher ao mesmo tempo que forço a entrada de ar…

…Ao mesmo tempo que forço a entrada de ar? Ok. Certo. Trata-se de uma degustação em minha casa e como estou aqui sozinha até nem vou incomodar ninguém com a minha sorvedela.


terça-feira, 7 de março de 2017

Medo

Não sei já que idade teria. Doze ou treze anos, talvez. Encontrava-me em casa e devia estar doente. Não recordo que mal me prendia ali mas estava de camisa de noite, estendida na cama, no quarto de paredes forradas a papel com enormes flores cor-de-rosa. A minha mãe tinha-se ausentado e eu, ali sozinha, do nada, comecei a sentir o coração a bater num ritmo cada vez mais acelerado. Batia tão forte que parecia querer saltar-me pela boca. Tão forte que achei que corria para a morte. Eu ia morrer ali, tinha absoluta certeza. Completamente tomada pelo pânico, saí de casa assim mesmo, descalça, e desci pelo elevador em busca de socorro junto da porteira.  Nesse momento estava já de volta a minha mãe e não demorou muito para que o coração se acalmasse. Nesse dia não morri. O coração já voltou outras vezes a correr disparado, sobre um fundo difuso de medo inexplicável. Mas nunca com tanta força como naquele dia, nunca com tamanho desespero. Não sei se são os medos que enfraquecem ou se é apenas o coração que, como inoculado, reage cada vez com menos força para que nem nos dêmos conta do apagão final.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Leitura

Quando não lhe escrevia qualquer palavra, conformava-se em ler-lhe o silêncio.

domingo, 5 de março de 2017

Passeio de domingo (347)


Ainda sem passeio do dia, volto a 2016 para repescar uma percurso por ruas antigas de Albufeira.








Janelas

O meu mundo é feito de janelas. À vez, escolho-as para me debruçar nos seus parapeitos. Tenho a de caixilhos de madeira que abre sobre o pátio da frente, a estrada e a horta. Também abre sobre uma boa porção de céu. Por estes dias é a que mais abro, ora para sentir o ar molhado da chuva, ora para me aquecer na maciez dos raios de sol. Por ela, observo ainda a azáfama dos pássaros que voam dos galhos das árvores para os fios do telefone, do poste da luz para a cerca do vizinho, do cimo do cipreste para a antena da televisão. 

Depois tenho um sem fim de janelas com caixilhos de bits e de bytes de onde observo boa parte do resto do mundo. Nestas há sempre uma parte do vidro que não abre totalmente. Está ali como um filtro de luz que me orienta o olhar, queira eu ou não olhar exatamente para ali. E depois há também o meu próprio filtro, incorporado nas minhas janelas de partida, as que têm caixilhos de pele e pelo. Nenhuma das outras se abre sem estas, claro.

Mas as que agora me estão a trazer os dedos para as teclas são umas janelas que eu costumo abrir com regularidade diária para respirar perfumes de outras vidas. São perfumes compósitos, muitos deles enganadores, criados por mestres da ilusão. Por isso, quando abro essas janelas, sei que devo ter o máximo cuidado no uso das minhas faculdades de perceção, não vá eu ser guiada pelo mais cego engano. Esses especiais cuidados têm o poder de me aumentar notoriamente a acuidade visual, com imediatos reflexos nos restantes sentidos. Assim, consigo daqui descortinar perfeitamente uma série de janelas, abertas umas sobre as outras, com gente debruçada sobre este domingo morno, aspergindo o ar com aromas de sedução.

sábado, 4 de março de 2017

Quarto minguante


já não sei há quantas luas não a via, a lua.
surpreendeu-me neste meio da tarde
agora mesmo
aqui
mas vi que segue a sua rota minguante
como à míngua eu estou
de um sinal de ti.


A morte chega cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
(...)
Fernando Pessoa


In memoriam 
Porque nos blogues, há pessoas.

Aditamento
Junto aqui o conjunto de homenagens à Teresa, num abraço coletivo de vários bloggers, conforme proposto pelo Rui.

Fatiferando
Jardins de Afrodite
O Pacto Português
O Cantinho da Janita
Coisas da Fonte
Flor de jasmim
Cantinho da Casa
Sentaqui
Dona-Redonda
Picosderoseirabrava
Rafeiro Perfumado
Celuloide Secreto, Outro Viés
Devaneios a Oriente
Crónicas do Rochedo
Do meu pedestal

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sem proveito

Não há tempo, bom ou mau, que me valha. Se há sol, queimam-se-me irremediavelmente as palavras. Se há vento, voam-me para longe. Se há chuva, dissolvem-se na corrente. Aqui não costuma nevar mas se acaso acontecesse, por certo congelariam. Em nenhum modo a escrita se me ajeita ao tempo. Apenas se encaixa em tempo perdido, sem proveito.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Garça

Quando, há pouco, quis gastar um bocadinho da tarde e saí para o sol, entretive-me a olhar para o lado azul do céu. Não havia sequer uma nuvem, daquelas que costumam deslizar ao sabor do vento e fingir-se de algodão. Gosto de as ver mudar de forma, imaginar-lhes vontade, descobrir-lhes mistérios, tê-las como figuras de histórias de encantar. Hoje não. Nem um ser fantástico para criar, nem uma lenda para lembrar, nem um conto para inventar. Então, fiquei ali, parada, entorpecida, contemplando a extensa uniformidade da tela celeste. Até que fui surpreendida pelo voo repentino e fugaz de uma pequena garça que atravessou o ar de sul para norte. A ave desapareceu e logo voltou a lisura do céu. Não sei se lhe invente uma rota e prossiga uma história ou se me contente com a mera lembrança da contemplação.