terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Máscara

Nunca usava. Até que, depois de muito adiar, decidiu que desta vez o faria e lá comprou uma máscara. Aplicou-a e concluiu que afinal até gostava do seu efeito nas pestanas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Entre terra e céu

Um céu embaciado esfarela-se em pó de deserto, derrama-se ruivo sobre o branco dos muros, sufoca as folhas das plantas no canteiro.

Do lado de dentro da janela, espero por uma chuva redentora, uma chuva que leve consigo o barro de volta às entranhas da terra. Não sei se virá.

Também não sei se virás. Espero-te como à chuva. A ti e às palavras que poderiam levar-me de volta ao céu. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Apito

Piiiip. Como um apito. É um só e isolado apito que, por isso mesmo, nunca conseguirei gravar. Nunca é esperado. Não tem repetição imediata mas não há quase dia nenhum que o não ouça. Estou sentada no muro baixo do pátio, antebraços descobertos, a trabalhar com o sol na minha síntese diária de vitamina D e, de repente, piiiip. Dois segundos, não mais. Nada vejo, nem um voo de pássaro. E eu acho que é um pássaro que assim pia. Mas como sabê-lo? Como comprová-lo? Já vasculhei o Google de piiip a piiip, que é como quem diz de ponta a ponta, já corri as vocalizações de aves disponíveis em site da especialidade e nada. Formulo uma e outra vez a pergunta no campo de pesquisa, mas nada. Nada corresponde. Em tempos, cheguei a pensar que seria um alarme. Mas que alarme apita por dois segundos e se cala de imediato? Coloquei já essa hipótese de parte. É uma ave, acredito. Uma qualquer ave desconhecida que resolveu piar assim só para me baralhar e me fazer escrever este post, correndo eu o risco de passar por alucinada.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Passeio de domingo (345)


Continuo em modo flashback e, por isso,  trago vistas de Cacela Velha, restos de uma passeio ao sotavento algarvio, em setembro 2016.







sábado, 18 de fevereiro de 2017

Luz


Quando, em dias como hoje, não há luz que me valha, fico muito sossegada esperando que aciones o interruptor.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Voo


Quando se cansava do pó dos caminhos, abria as asas, tomava impulso desde um qualquer fio elétrico e voava até se impregnar totalmente de azul e se confundir com o céu. No cabo, ficavam os sapatos, irremediavelmente esquecidos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Gaivotas

De manhã, quando abri as janelas da sala, atravessavam o céu umas dez ou doze gaivotas.  Passavam alto e tive de olhar atentamente para perceber que eram mesmo gaivotas. Bem sei que em voo de pássaro a distância encurta mas o mar ainda está a alguns quilómetros e não é assim tão frequente elas se aventurarem até aqui. Fiquei parada a vê-las planar. Foi certamente o vento que as trouxe. Tão forte tem soprado, o vento. Tão forte, o dia todo. Trouxe-me gaivotas pela manhã e eu esperava que me trouxesse as palavras certas pela tarde. Enganei-me. O que ele fez foi levar as gaivotas de volta para o mar e percebo agora que no seu dorso voaram também as palavras.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Direção


Não olhes para trás, diziam-lhe. Mas a dúvida permanecia. Para que lado se ia em frente?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Ce n'est rien



ou então, voltando ainda mais atrás.

Chuva

Hoje não saberei senão falar-te da chuva oblíqua que se atravessa na frente dos meus olhos, do lado de fora da vidraça. Cai oblíqua, ora mansa, ora bravia e desliza sobre as superfícies que lhe cruzam o percurso. Um dia inteiro sem mudar de direção. Descansa, só por momentos, deixando então que se ouça o lamento das goteiras e os gritos das poças de água que os carros rasgam no asfalto. Nem rumor dos pássaros. Cá dentro há o ronronar do forno e o aroma doce do bolo de maçã que em breve estará no ponto.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Pauta


Procurei uma música. Nenhuma me pareceu adequada. Finalmente, encontrei uma pauta e pensei que talvez possas ser tu a escrever a partitura.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A vida é bela (113)

... no branco acetinado da açucena.


Crepúsculo

Neste preciso instante não há rumor de vento lá fora. As folhas das árvores escurecem à míngua do sol que já só se ocupa a tingir o céu de rosa e laranja. O dia morre. É uma morte bela porque traz consigo uma promessa de ressurreição. Amanhã é um novo dia.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sol

Sentei-me por uns minutos num pequeno muro baixo que tenho aqui na rua. Arregacei as mangas para apanhar o sol. Apanhei-o com os braços e com o rosto também, enquanto um vento leve passava os dedos pelos meus cabelos.

O cenário apresentava-se cheio de cor, especialmente de azul, daquele azul dos dias límpidos, que nos entra poros dentro e nos ilumina o olhar. O som estava a ser assegurado pelas aves que percorriam o ar entre o cipreste que está junto ao portão e as árvores da horta. Outras tantas, nas minhas costas, escondidas nos altos ramos das alfarrobeiras, conferiam ainda maior relevo sonoro ao ambiente, como que em estereofonia. Uma borboleta branca volteou para cá e para lá sobre a minha cabeça. Uma joaninha pousou no chão, do lado de lá do meu pequeno muro. Em voo rasante passou, repentinamente, uma andorinha. E logo outra. Chegaram já. Sorrio.

Pode bem chover amanhã, e nos demais dias da semana, conforme vi que se prevê no sítio da meteorologia. Pode. Porque vou guardar em mim, como reserva, aqueles minutos em que apanhei o sol.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Tangerina

Descasco uma tangerina. A sua casca rasga-se num frémito e suspira entre os meus dedos. Por instantes, dançam no ar pequenas gotas de um gás incendiário que me vem depois morrer na pele. Separo os gomos e mordo-os um a um. Lavo as mãos mas o seu cheiro não sai. Parece-me ouvir uma voz que me diz partilha. Partilha. Então, escrevo-o aqui na tentativa de o fazer passar pelo texto para outra pele.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Uma flor



Se eu pudesse, ia agora mesmo procurar uma flor de amendoeira. Escolheria a mais desabrochada, uma que já tivesse vivido dias de chuva e de sol, uma que soubesse quase tudo da vida das flores de amendoeira, como uma mulher sabe quase tudo da vida das mulheres. Então, haveria de a colher com muito cuidado e logo a prenderia nos meus cabelos para que, como num encantamento, me fundisse nela.

E eu aqui, algarvia, espremida entre a lentidão e o cumprimento



Neste texto sinto-me abraçada pela escritora. Ouso dizer que sou uma mistura desta herança lenta de deuses adormecidos ao sol e de quem costuma usar a chave do respeito pelos outros e cumprir. Cumprir o melhor possível.