segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O mar


Antes do sonho (ou o terror) tecer
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, o sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é esse violento
E antigo ser que rói estes pilares
Da Terra, e é um e muitos mares
E abismo e resplendor e acaso e vento?
Quem o contempla o vê pla vez primeira,
Sempre. Com o espanto que as perfeitas coisas
Elementares deixam, as formosas
Tardes, a lua, o fogo da fogueira.

Jorge Luis Borges, Nova Antologia Pessoal, Quetzal Editores, 2017


domingo, 14 de janeiro de 2018

Passeio de domingo (391)



Hoje foi no campo que ainda não dá mostras de querer florir. Temo pelas amendoeiras, cada vez mais secas e abandonadas.








sábado, 13 de janeiro de 2018

Kingfisher

O sucedido foi há já uma semana, mas a semana andou arredia daqui, por isso relato-o hoje.

Cruzámo-nos no passadiço. Eu de máquina fotográfica, ele de binóculos. Estimei-lhe a idade em mais quinze anos do que a minha. Não sei se exagerei no cálculo. Sei, sim, que na maior parte das vezes tendo a achar-me – dizer sentir-me seria talvez mais correto – mais nova do que na realidade sou. Vinha ele, então, em sentido contrário ao meu e olhando para a minha máquina, com ar de incontida felicidade, disse-me que havia ali perto um guarda-rios. Tinha acabado de o avistar. E logo, solícito, me indicou a margem de lá da lagoa, para o lado do mar. Dali da ponte, é olhar para a esquerda, naqueles juncos. Estava ali agora mesmo. Vá, que é bem capaz de o apanhar, dizia apontando o queixo para minha máquina. E fui. There’s a kingfisher over there…. Enquanto olhava, ressoavam ainda na minha cabeça as palavras do homem dos binóculos. Olhei, esperei, voltei a olhar. Em vão. Não era o meu dia de ver um guarda-rios.


domingo, 7 de janeiro de 2018

sábado, 6 de janeiro de 2018

O homem do talho

Na verdade, não costumo reparar no homem do talho.  Fixo-me nas peças de carne expostas na vitrine, tento organizar mentalmente as refeições que pretendo preparar, decido o que quero levar para casa. Por vezes, não é homem, mas sim mulher do talho. Depende do talho onde vou, claro. E tanto vou ao talho das grandes superfícies, como ao talho do bairro onde mora a minha filha, por exemplo. Pode ser no Algarve ou pode ser em Lisboa. E para além disso, raramente há lá só um homem do talho.

Em todo o caso, o homem do talho há de ser, para mim, parecido com o pai de uma amiga que tive na infância. Aqui, também para falar verdade, não posso dizer que me lembre nitidamente do pai da Brigitte. Mas na minha ideia surge-me um senhor de meia idade, um pouco atarracado, com barba rija, de mãos grossas e pelo nos braços.  Esta imagem, estou eu agora a pensá-la. Fui buscá-la lá nos fundos da memória para fazer o contraponto ao homem do talho de hoje.

A decisão sobre o que levar estava tomada antes de sair de casa. Assim, não precisando de me concentrar sobre o conteúdo do expositor das carnes, enquanto esperava pela vez, o meu olhar fixou-se no cabelo louro oxigenado do talhante e nos seus trejeitos efeminados. Um homem do talho com o cabelo louro oxigenado, deixando ver por baixo o tom escuro natural do dito, não combina. Isto é, não combina com o meu preconceito.  Fiquei a observá-lo, divertida com esta nova imagem de açougueiro que se me apresentava. Enquanto me atendeu, todo ele simpatia, brincou com a cliente seguinte, que devia ser cliente habitual, e contou histórias de clientes bizarros, com obsessões por carne, que vinham ao talho mais do que uma vez por dia e que ele, desentendido, atendia como se ainda não os tivesse visto.

Com o meu frango do campo devidamente cortado e embalado, despedi-me sorridente e satisfeita, como quem descobre um novo mundo. Segui para a caixa do supermercado pensando que até um talho pode ser um lugar estranho.  


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Serão

Chove ininterruptamente desde as sete da tarde. É uma novidade, nos tempos que correm. A chuva que não me deixou ir à rua para dar uso ao estendal e me pôs a ligar a máquina de secar roupa, está, apercebi-me agora, a tentar comigo um jogo de sedução. Ouço o seu bater ritmado nas paredes, nas janelas, no chão, no toldo da cozinha, nas telhas, nos aljerozes, e noto que é a banda sonora perfeita para eu ir daqui para a cama, aconchegar-me nas almofadas e empatar um pouco o sono agarrada ao livro que encima a pilha dos que moram por estes dias na mesinha de cabeceira.  Está bem. Rendo-me ao apelo da música. Do tal livro, só preciso decidir se o abro nos contos, nos poemas ou nos ensaios.  

Trânsito

A alvéola branca que atravessou a nacional cento e vinte cinco, sensivelmente pelas oito horas e quinze minutos, saltitando apressada sobre o asfalto, ou era uma alvéola inconsciente ou então suicida. Ainda pensei que levantaria voo, rasgando o ar mesmo junto ao meu para-brisas, mas não. Travei ligeiramente para não a atropelar e segui resmungando que já não bastam cães e gatos atrevidos, agora até os pássaros. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Um caminho

Havia um caminho estreito, pouco mais que uma vereda. Ainda lá está, mas a falta de uso e o tempo favoreceram as moitas. É delas, agora, o caminho. E das aves que lá se escondem. Num ou noutro ponto, consigo cruzá-lo. Pulo sobre os valados já meio desfeitos, tento esquivar-me aos espinhos que também ali reinam e atravesso de um para outro terreno. Era o caminho das professoras. Foi também o meu nos poucos e longínquos meses em que frequentei a escola da aldeia. Recordo dias de tempestade em que o percorria abrigada num impermeável azul turquesa. Não há forma de usá-lo hoje em dia. Fechou-se o caminho e os passos que o cruzaram são memória ténue. Totalmente irrecuperáveis. 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Natalino

Natalino, que, como facilmente se deduz, deve o nome ao dia 25 de dezembro, em que nasceu, e à madrinha Maria da Conceição, ficou para sempre marcado com o estigma dos presentes de Natal. Tanto assim, que não há vez nenhuma em que se porte menos bem que não esteja logo alguém a atirar-lhe: sempre me saíste uma boa prenda!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

domingo, 17 de dezembro de 2017

Passeio de domingo (388)



Fui ver o mar, aos Olhos de Água e, em tarde curta, pude ver também o sol mergulhando no horizonte.










quinta-feira, 14 de dezembro de 2017